A sequência de quedas no nível dos reservatórios brasileiros ligou um sinal alerta em toda a sociedade para um provável racionamento de energia no país, mesmo com o Governo Federal negando veementemente a possibilidade e acionando termelétricas para garantir o abastecimento à população. 

O fato é que, independentemente de qualquer situação, somente em setembro duas hidrelétricas que compõem o subsistema Sudeste/Centro-Oeste – responsável pelo armazenamento de cerca de 70% da água no país – passaram a operar no volume morto, um recorde negativo e que tende a piorar em razão da falta de chuvas.

Apesar disso, uma dúvida que ainda é pouco compreendida por parte das pessoas é: o que significa dizer que uma hidrelétrica opera no volume morto e o que realmente acontece quando esses empreendimentos passam a funcionar nestas condições adversas?

Para responder esses questionamentos, o Canal Solar conversou com Paulo Cunha, pesquisador da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e ex-diretor técnico da ABRACEEL (Associação Brasileira de Comercializadores de Energia). O profissional explicou que o volume morto é um termo utilizado para se referir ao momento em que a água das represas fica abaixo do nível de captação.

Ou seja, trata-se da água que não foi programada para ser usada no dia a dia, mas que funciona como uma espécie de “poupança” em caso de emergência. “O reservatório é como se fosse uma grande caixa d’água, que possui vários níveis de alturas”, comentou.

Cunha explicou também que uma usina de grande porte tem condições de manter sua operação funcionando, mas que isso passa longe do ideal. “A captação em níveis mais profundos não garante a qualidade da água, porque ela vai estar misturada com contaminantes e elementos que não permitem um uso adequado do recurso”, disse ele.

“É isso, inclusive, que significa volume morto. É o volume de água que está abaixo do nível que não se considera adequado para utilização”, pontuou. “Quanto mais você opera nestas condições adversas, mas você gera dificuldade para conseguir reencher o volume no próximo ciclo de chuvas”, ressaltou ele. 

O profissional lembra ainda que os reservatórios que operam próximo do seu limite, além de correrem o risco de secar, também podem ter o seu sistema de funcionamento danificado. “Se uma usina operar numa região onde a cota está tão baixa que a qualidade da água já começa a ficar prejudica, você passa a trazer um risco de operação para as próprias máquinas, o que ainda não é o nosso caso”, frisou ele. 

Publicado Originalmente no Canal Solar em 2021-09-24 15:26:56